Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Está Tudo Tratado e Nada Resolvido

Tratamento de temas interessantes de uma forma desinteressante. Abordagem inconsequente acerca da consequência das coisas. Tudo será devidamente tratado, mas sem qualquer resolução. Os leigos também têm opiniao...

Está Tudo Tratado e Nada Resolvido

Tratamento de temas interessantes de uma forma desinteressante. Abordagem inconsequente acerca da consequência das coisas. Tudo será devidamente tratado, mas sem qualquer resolução. Os leigos também têm opiniao...

David Purley, o espectador acidental...


 

Quando se realizou o grande Prémio de Formula 1 da Holanda em 1973, no circuito de Zandvoort, tinha eu 7 anos. Vivia em Angola e não tinha televisão, por isso não pude assistir em direto à morte do piloto britânico Roger Williamson. Só anos mais tarde ouvi falar na tragédia que ocorreu nesse dia 29 de Julho. Quando vi as imagens das gravações da época fiquei estarrecido.
 
Zandvoort foi a segunda corrida de Williamson na Formula 1. Pilotava um carro March e tinha ficado a meio do pelotão, numa grelha onde o melhor tinha sido o Lotus de Ronnie Peterson. Na volta seis, quando Williamson era 13º, um pneu furado provocou uma batida nos “rails” na curva Scheivlak e capotou. O carro incendiou-se e Williamson estava virado de cabeça para baixo, não podia sair.
 
David Purley, um piloto privado e seu amigo, seguia na 14ª posição. Parou o seu March e correu em direcção a Williamson, tentou virar o carro ao contrário, pois sabia que ele estava vivo. Entretanto, o incêndio espalhava-se e os comissários de pista assistiam passivos, julgando que o carro que Purley estava a virar… era o dele próprio!
 
Sabendo o que se passava, Williamson gritou para Purley: “Pelo Amor de Deus, David tira-me daqui!”.
 
Purley tentava o impossível, pedia aos comissários para o ajudar, pedia para que os outros carros parassem. Mas estes não o fizeram, e para piorar as coisas, a organização não tinha interrompido a corrida, limitando-se a assinalar o local com uma bandeira amarela.
 
Impotente perante o que estava a acontecer, Purley caminhou saiu do local a chorar compulsivamente, enquanto a corrida continuava. Só quando os comissários finalmente apagaram o incêndio é que viram a realidade. Roger Williamson estava carbonizado. O promissor piloto inglês de 25 anos, que tinha ganho tudo na Formula 3 britânica, estava morto na sua segunda corrida da carreira. Por todo o mundo se assistiu à tragédia que havia sido transmitida em direto.
 
Mais tarde o diretor de prova tentou justificar o ocorrido com um mal entendido, disse que ninguém percebeu que estava um piloto dentro do carro, toda a gente pensou que o carro era o de Purley. O assunto nunca foi entregue à justiça.
 
David Purley foi condecorado com a medalha George Cross, a mais alta distinção inglesa por coragem em situações de salvamento, recebeu ainda mais 12 outros prémios.
 
Foi graças ao negócio de família, a fábrica de frigoríficos LEC, que David Purley cresceu num berço de ouro. Mas o berço de ouro não inibiu o seu gosto pela aventura. Descobriu desde cedo o prazer de voar e incentivado pelo seu pai, tirou o brevet aos 16 anos. Nessa altura, era o mais jovem a fazê-lo no Reino Unido.
 
Contudo, pouco depois, David decidiu alistar-se no exercito britânico, mais concretamente, no Regimento de Para-Quedistas. Em 1967 durante um salto de treino o seu paraquedas falhou parcialmente a sua abertura, mas sobreviveu ao salto.
 
Após ter cumprido o serviço militar , em 1968, Purley foi atraído para o mundo dos automóveis pelo seu amigo Derek Bell, que começava a ter uma carreira bem sucedida nas corridas. Vendo o automobilismo como um bom motivo para manter os seus níveis de adrenalina, comprou um AC Cobra, começou a vencer algumas corridas. Em 1970 decidiu mudar-se para os monolugares.
 
Nesse ano, comprou um velho chassis Brabham de Formula 3 e decidiu formar uma equipa, a LEC Refrigeration Racing, batizando-o com o negócio da família. Foi nessa altura que conheceu Roger Williamson.
 
Williamson era um dos melhores do seu tempo, dominava a Formula 3, acabando por vencer três títulos entre 1971 e 1972.
 
Em 1972, Purley mudou-se para a Formula 2, onde arranjou um chassis March. Não conseguiu mais do que um terceiro lugar nas ruas da cidade francesa de Pau, arrebatando apenas os quatro pontos dessa corrida.
 
Em 1973, começa a temporada na Formula Atlantic, mas pelo meio, arranjou um March 731 de Formula 1. Tal como nas outras vezes, inscreve-o com a equipa LEC Refrigeration e participa em algumas corridas.
 
Estreia-se no GP do Mónaco. A sua segunda prova será apenas em Julho, em Silverstone, mas sofre um despiste logo na primeira volta.
 
Mas vai ser na terceira corrida em que participa, o GP da Holanda, que o seu nome fica conhecido pelo mundo inteiro. Partindo da 21ª posição, ganhou algumas posições até à oitava volta, quando viu acidentar-se o outro March de Roger Williamson, o que se passou já vos contei.
 
Purley voltou a correr num Formula 1 no GP de Itália, terminando a corrida no nono posto, que viria a ser a sua melhor prestação na categoria máxima do automobilismo.
 
A partir do ano seguinte, concentrou-se na Formula 5000, competindo no campeonato da categoria, a bordo de um Lola. Essa passagem revelou-se um sucesso, sendo campeão em 1976. Após esta conquista decidiu que era altura de voltar à Formula 1.
 
Em 1977 cria o seu próprio monolugar com a ajuda de alguns distintos especialistas da industria automovel, batizado como LEC CRP1, estreou-se em Jarama, palco do GP de Espanha, mas acabou por não se qualificar. A corrida seguinte seria em Zolder, palco do GP belga. E aí, Purley deu nas vistas.
 
Durante a corrida, apareceu-lhe atrás o Ferrari de Niki Lauda, que o pressionou durante muitas voltas, mas Purley não cedeu, incomodando o suficiente para perturbar o cerebral austríaco. Terminou na 13ª posição. No final perguntou de modo sarcástico ao seu mecânico:
 
“Quem era o idiota do carro vermelho?”
 
Lauda ouviu a pergunta e tiveram uma troca de palavras em que o austriaco chamou a Purley “coelho” e este respondeu-lhe, chamando-o “rato”.
 
Purley não deixou passar em claro a graça. Na corrida seguinte, o GP da Suécia, colocou o desenho de um coelho no chassis do seu carro. Lauda achou piada e apareceu com a palavra “Rato” escrita no seu capacete, e assim com alguns risos foi sanado o incidente entre os dois.
 
No GP da Grã-Bretanha, dado o grande número de carros inscritos, os organizadores tiveram de realizar uma pré-qualificação. David Purley tentou o seu melhor, mas na segunda sessão de treinos, o acelerador do seu LEC ficou preso e o carro embateu fortemente nas barreiras de proteção, ele foi esmagado no seu cockpit, com graves lesões nas pernas, na pélvis e no tórax. Mas sobreviveu.
 
Esteve quase um ano a recuperar dos seus ferimentos, ao mesmo tempo que o seu carro era reparado. Após ter feito uma corrida com um Porsche 924 em Brighton, voltou ao cockpit do seu LEC em 1979, para disputar a Aurora Series, o campeonato britânico de Formula 1. Para além do seu LEC, também tripulou um Shadow, com alguns resultados de relevo, mas no final desse ano, decidiu abandonar a sua carreira de piloto.
 
A partir de então resolveu dar uso ao seu brevet de aviador, Purley começou a dedicar-se à acrobacia aérea. Contudo, a 2 de Julho de 1985, quando fazia acrobacias ao largo da sua cidade natal, Bognor Regis, no Pais de Gales, calculou mal uma manobra e caiu nas águas do Canal da Mancha. Tinha 40 anos de idade.
 
O seu corpo nunca foi encontrado.